Caminho Nascente

Conhecer os Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo é, mais do que uma viagem, uma experiência que marca, que fica, que se guarda.

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Percorrer os Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo esconde a promessa de uma aventura, de descobertas inusitadas, do desvendar de uma história que a memória preservou, uma história que se desenrola a cada paragem. Percorrer os Caminhos é reviver essa história nas marcas que o passar do tempo não foi capaz de apagar, é transformar o viajante no espectador de uma narrativa que se conta no património material e imaterial, nas terras, vilas e curiosidades, na gastronomia, nas gentes e nos seus costumes, os que já foram e os que continuam a ser e, ao mesmo tempo, no participante da mesma, incapaz de resistir aos encantos que vai desvendado.

Mais do que caminhar, é conhecer uma terra de paisagens que, ainda que diferentes, partilham o facto de serem únicas, repetindo-se apenas nas recordações que delas ficam.

Conhecer os Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo é, mais do que uma viagem, uma experiência que marca, que fica, que se guarda. E que se quer repetir.

Alcoutim (Algarve) Mesquita

Provenientes de Alcoutim, “navegamos” o Guadiana sempre ao longo da margem portuguesa, seguindo a sinalização da rota GR15, até chegarmos à ribeira do Vascão, já com a fadiga acumulada de alguns quilómetros pela serra algarvia. A passagem da ribeira do Vascão faz-se na zona assinalada, assumindo que o nível das águas está raso, como acontece quase sempre, com exceção feita a períodos de grandes chuvadas.

Mesquita Mértola

Saímos da aldeia entre os ancestrais muros de pedra que já então conduziam as gentes para Mértola. Entramos na área protegida do Parque Natural do Vale do Guadiana e, com o Algarve cada vez mais longe, percorremos o caminho para norte, em direção ao Alentejo profundo. Aqui, é de notar os verdes dos matagais de zimbro e o singular montado de azinheiras. Na primavera adiciona-se o amarelo e o rosa, proveniente das centenárias tamargueiras em flor. Respiramos o ar puro e seguimos caminho!

Mértola Amendoeira da Serra

É grande a riqueza dos recursos faunísticos na Amendoeira da Serra, numa região onde a caça é a atividade dominante, como deresto em todo o concelho de Mértola, já com séculos de história, a qual é particularmente enfatizada no decorrer da Feira da Caça, em outubro.

Amendoeira da Serra Cabeça Gorda

Não se conhecem as origens da aldeia de Cabeça Gorda, já no concelho de Beja, mas há dados históricos que dão conta da sua criação ser muito anterior ao nascimento de Portugal, provavelmente durante a época da ocupação árabe, que teve início no ano 702 d.C.

Cabeça Gorda Beja

Esta é uma etapa curta e relativamente plana até Beja, o que nos permitirá dedicar algum tempo a descobrir a imensa riqueza patrimonial e cultural da capital do Baixo Alentejo e a recuperar do maior esforço dos dias anteriores. Estamos em plena planície das ricas terras vermelhas de Beja, sempre muito disputadas ao longo dos séculos pelos diversos povos que as ocuparam. Não se admire portanto se, ao longo do Caminho, encontrar alguma equipa de arqueólogos a desvendar mais algum vestígio de ocupação dos povos do Neolítico, islâmicos ou romanos, sempre com muitas histórias e lendas associadas.

Beja Cuba

Planície pura, dura, sem sombras, alguns cavalos a pastar, mais oliveiras alinhadas e uns poucos aviões a descolar do aeródromo, que quer ser aeroporto internacional. Beja serve de ponto de partida para mais uma etapa, que termina em Cuba, vila com vários atrativos. Desde logo, no largo onde se situa o Turismo, descobrimos a controversa estátua de Cristóvão Colombo, da autoria do escultor Alberto Trindade, inaugurada em 2006 e que pesa uma tonelada e meia.

Segundo uma investigação histórica, Cuba foi local de nascimento e batismo de Salvador Fernandes Zarco, filho ilegítimo de um nobre de Beja, e que terá adotado o nome espanhol de Cristóvão Colon para servir, a mando do rei português, como espião na corte espanhola. O enredo – descrito em exposição patente no posto de Turismo – é complexo mas verosímil, e explica, entre outras “coincidências”, porque é que o famoso descobridor terá dado o nome de Cuba à ilha em que aportou nas Caraíbas, para além de outros nomes de origem alentejana que utilizou em outros “baptismos”.

Cuba Viana do Alentejo

Começamos esta etapa na Rua de Serpa Pinto, junto à estátua de Cristóvão Colombo. No fim da rua, na rotunda, seguimos à direita na Estrada da Circunvalação para a saída da vila. Pelo caminho em terra batida, seguimos em frente, 2,1 km. Infelizmente, não é possível seguir pela antiga Via Romana, que agora é atravessada por herdades privadas. No entroncamento, viramos à esquerda mais 2,4 km. Após as habitações, o Caminho faz-se pela esquerda, que encontramos no fim uma estrada regional. Seguimos curtos metros para a direita, para entrarmos no primeiro caminho na berma esquerda.

Viana do Alentejo Évora

Não cabem aqui tantas visitas obrigatórias que a fascinante Évora nos oferece: a Sé, as incontáveis igrejas, o templo romano, a Universidade, as genuínas e antiquíssimas ruelas, os conventos e os monumentos megalíticos nas imediações, a Capela dos Ossos, na Igreja de São Francisco, onde a mensagem sobre a portada nos alerta para a intemporal fragilidade humana: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”…

Évora São Miguel de Machede

Évora é uma das cidades com mais rico passado histórico do mundo, pelo que poderíamos ficar por cá, ou voltar cem vezes, que, nas palavras de Raul Proença (in Guia de Portugal), encontraremos sempre “(…) torres que se erguem, muralhas que nos esmagam, encruzilhadas que nos tornam perplexos, fachadas que avançam ou recolhem, desníveis, torcicolos, nichos, arquetas, alpendres, balcões, trechos de aguarela,(…)”.

S. Miguel de Machede Evoramonte

No Castelo de Evoramonte, cujo perímetro muralhado data de inícios do século XIV, altura em que D. Dinis mandou que a vila fosse fortificada, o panorama é grandioso e severo, com um horizonte vastíssimo e imperturbável que nos deixa suspensos e inertes. Hoje, Evoramonte é sede da Rede Europeia de Sítios da Paz, uma rede de lugares da Europa onde foram assinados tratados de paz ou capitulações, representados por instituições públicas e privadas, com o intuito de trabalharem em conjunto para construir uma cultura de paz e para promover estes lugares com base no seu Património Histórico Comum – a PAZ.

Evoramonte Estremoz

Até Estremoz teremos mais uma jornada de longa intimidade com a floresta de sobro e azinho, serpenteando por entre o verde sombrio dos montados e o edificado das escassas herdades. É fundamental que nos preparemos, tanto de abastecimento físico como de robustez mental, pois não é previsível que encontremos qualquer tipo de apoio pelo Caminho.

Estremoz Sousel

Vila com grande apelo histórico da idade média, Sousel é um verdadeiro concelho com história,a mesma que ajuda a explicar as origens do seu nome, envolto em grande controvérsia. Para muitos, a origem está na frase proferida por D. Nuno Álvares Pereira, condestável do reino ao tempo de D. João I – “Ora Sus a Ell” – em 1834, em oração aquando da batalha de defesa contra os castelhanos. Para outros, o nome é proveniente do funcho Seseli, que nasce selvagem pelos campos.

Sousel Fronteira

A caminho de Fronteira, vila alentejana cujos vestígios da ocupação humana remontam há mais de 10 mil anos, encontram-se outros vestígios, estes de um passado menos distante. Em 1384, estando a independência portuguesa ameaçada pelo cerco do rei de Castela e por uma invasão castelhana no Alentejo, Nuno Álvares Pereira, ao serviço do futuro rei D. João I, reuniu um exército de pouco mais de 1500 homens, 300 lanceiros e 100 besteiros. A batalha teve lugar no local pantanoso de Atoleiros, onde as tropas portuguesas adotaram a tática do quadrado e conseguiram, assim, suplantar um exército composto por três vezes mais soldados. A cavalaria castelhana, derrotada pelos lanceiros portugueses, começou a dispersar e a abandonar a batalha, saldando-se esta por uma vitória para o lado português, que preparou outras batalhas importantes nos meses seguintes. No local onde decorreu a batalha existe um memorial, inaugurado a 6 de abril de 1979.

Fronteira Cabeço de Vide

Segundo a lenda, foi no cabeço de um monte que os sobreviventes da peste que se seguiu a um ataque sarraceno se refugiaram e que, recuperando a saúde, dali em diante lhe chamaram “Cabeço de Vida”. É para Cabeço de Vide que caminhamos, onde o povoamento romano se sobrepôs a ocupações anteriores, conhecidas desde o Neolítico, e deixou a forte influência na região, passando aqui uma estrada subsidiária da importante via que ligava Lisboa a Mérida e que servia as Termas de Sulfúrea, onde foram encontradas ruínas de um balneário e muitos outros vestígios arqueológicos desta época.

Cabeço de Vide Alter do Chão

A caminho de Alter do Chão passamos por Alter Pedroso, que recebeu foral em 1216 e deve ter sido a partir dessa data que se ergueu o castelo, possivelmente por iniciativa da Ordem de Avis, em cujas possessões a vila se implantava. Desconhece-se a marcha das obras nas décadas seguintes, sabendo-se apenas que, em 1662, em plena guerra entre Portugal e Espanha, a fortaleza estava totalmente desguarnecida e foi arrasada pelas tropas invasoras.

Alter do Chão Crato

Aqui, na antiga Ucrate, tomada aos mouros no século XII, e doada à Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de Malta logo de seguida, está omnipresente a Cruz de Malta, atestando a importância que a vila teve no período medieval do Grão-Priorado do Crato, o qual incorporava uma extensa região que se estendia no que é hoje já parte da região Centro de Portugal.

Crato Alpalhão

Esta etapa tem início na vila do Crato, que tem como ponto de destaque o Mosteiro de Flor da Rosa, a mais importante igreja-fortaleza medieval portuguesa, concebida para sede da Ordem do Hospital no país e à qual se associava um mosteiro e um paço.

Alpalhão Nisa

A herdade da Açafa, onde viria a nascer Nisa, foi doada à Ordem do Templo por D. Sancho I. Por volta de 1290, D. Dinis ordenou que a vila de Nisa fosse refundada no vale do Azambujal, alguns quilómetros a sul de Nisa-Velha. Data, assim, de finais do século XIII a construção da cerca defensiva da vila. As obras foram dirigidas por Lourenço Martins, mestre da Ordem do Templo, que ergueu uma cerca tendencialmente quadrangular, reforçada por torres. Este sistema defensivo foi objeto de várias campanhas renovadoras em 1343, 1512 e 1646. Nesta última data, no contexto de guerra com Espanha, ergueu-se uma segunda linha de muralhas que abrangeu o arrabalde da vila, criando assim os dois rossios (de dentro e de fora), que ainda hoje caracterizam o urbanismo de Nisa. Ainda se conserva parte da Porta de Santiago, que era de arco apontado e flanqueada por duas torres quadrangulares, e o culto ao apóstolo mantém-se no topónimo Rua de Santiago, do lado norte da vila.

Nisa Vila Velha de Rodão (Centro)

São antigos, muito antigos, os vestígios do passado de Ródão, sobretudo de natureza geológica, datados de cerca de 600 milhões de anos. Rochas xistosas e quartzíticas, fósseis de trilobites e bivalves, testemunham um antigo mar que até ali chegava. Mas marcas da história há muitas mais, de diferentes épocas e povos, dos romanos aos muçulmanos. A caminho de Vila Velha de Ródão é também possível observar vestígios das contribuições da Ordem de Santiago, na parte que ainda se conserva da Porta de Santiago, de arco apontado e flanqueada por duas torres quadrangulares.